Autoretrato com macaco

A partir do quadro de mesmo título, pintado em 1940 por Frida Kahlo

As asas das sobrancelhas inventam
o voo de uma gaivota na testa.
Nos olhos, lagos escuros, há restos
de dores, medos, anseios e noites.

Frida, ferida que se abriu na carne
viva, deixando à vista o rio do sangue,
trançado aqui na trança, raiz rubra,
emaranhada no cipó dos cabelos.

As folhas trazem verde ao fundo escuro,
um muro da floresta que não resta –
as mãos do mato longe da mãe mata
e as quase mãos humanas de um macaco.

Nos olhos dele a selva ainda insiste,
no esconderijo denso do indefeso.
Os olhos dela jamais amanhecem
e dentro dessa noite, o seu segredo.