Ruínas

Poema escrito a partir de uma foto de Sebastião Salgado, na qual um homem com uma perna amputada caminha de muletas por uma avenida em Cabul, Afeganistão. Os prédios dessa avenida encontram-se completamente destruídos, após um dos vários bombardeios que essa cidade sofreu.

Um homem vai pela rua como um rio em seu leito,
como se carregasse na carne reflexos do que vê nas margens,
estruturas de prédios quebrados – as ruínas da sua cidade.

Essas ruínas recentes não excitam arqueólogos.
São escombros da última guerra, não a erosão do tempo.
Os olhares voltados a elas não precisam imaginar o que eram.
A era passada ainda mora na memória sem trégua dos vivos.

Essa civilização não se perdeu.
E, assustada, ressurge, como o capim entre as pedras.

Sob o céu dessa cidade,
após as chamas, a fumaça, as cinzas,
após o ódio,
tudo parece estático.
Mas o fluxo do sólido não cessa,
seguindo em direção a restaurações futuras,
quando verdadeiros rios refletirão novos prédios.

Guernica, Dresden, Hiroxima…

(mentes resolutas constroem, aos poucos, o que foi destruído às pressas)

Beirute, Cabul, Bagdá…

Um homem vai pela rua como um rio em seu leito.
Mas não são meros reflexos, as ruínas que carrega na carne.